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Depois dos dias

Pronto, desencarnei... pobres mortais... tantas diferenças, tão iguais... temem tanto e um quanto mais... pobres e ricos mortais... têm um livro para escrever, mas não atinam com a pena... recitam seus direitos com a convicção duma novena, conhecem bem suas preces... pedem muito, pouco agradecem... porém, todos, sem exceção, esquecem, que tudo o que nasce, perece... seja então, estes versos, uma prece, que há muito estava guardada, pois do plano da matéria, o ser levará consigo, seus atos, seus passos, e mais nada. Cezar Lopes.

Mensagem para o futuro

Meus verdadeiros irmãos são os loucos, os poetas os presistenes e os desvalidos os demais já estão vencidos pela mesmice da vida Onde a verdade parida, morre de fome e de sede, onde a ganacia humana, que campeia entre os normais julga e condena aos iguais a uma vida sem vida Para mim, é outra a lida trabalho com o pensamento sou livre tal qual o vento com direitos de Senhor e ainda que me espante o horror dessas vidas sem sentido sou forçado a dar ouvidos a quem tem o que dizer Assim, num parecer de pensamento e de esforço deixo, aos que virão este esboço que define o fraterno Ser humano não usa terno quando nasce só quando morre Então, dispamo-nos das vaidades das aparências profanas e a elas demos o fim que cabe a toda a matéria Deixemos aos corvos as carnes e aos espíritos o ser já que depois de morrer o poder e o ter não importam Basta ver que os que confortam a tantos seres na terra já batalharam nas guerras até entenderem seu erro A vida ensina o enredo que o tempo mostra aos mor...

MINHA CRIANÇA

Minha criança saiu a passear, visitar amiguinhos. Me pediu moedinhas - uns tostões, duzentos reis para fazer compras... compras de criança. Adulto sempre diz – não! Faz mal, tira a fome, não alimenta. Minha criança birrenta insistiu, choramingou, fez beicinho. Disse que gosta de mim. Dizer não - hum! Não consegui. Consenti! Saiu pulando, cantando, feliz, pés descalços, cabelos ao vento. Subiu na pitangueira (cuidado! Por um triz você quase caiu!) Pulou muros (psiu! Para roubar goiabas no vizinho) Brincou nas ondas do mar. Jogou bolinha de gude com a molecada, soltou pandorga, entrou na pelada, no bate-bola do Zé, fechou o gol, pulou amarelinha, lenço-atrás, andou de patinete. Comeu melancia, pitomba, manga, sorvete de mangaba. A roupa, os braços, orelhas, o rosto, tudo lambuzado, açucarado – da ponta do nariz ao dedão do pé! (ui! Doeu a picada do marimbondo!) Foi à matinê ver filme de cow-boy. Cansada, voltou para casa comendo algodão-doce não se esquecendo de, antes d...

Homenagem ao homem livre

Eduardo chegou em casa cabisbaixo. A mãe estranhou o comportamento do filho, mas preferiu não o atormentar com perguntas. Contudo, seu abatimento era evidente. Logo ele que adorava a escola! Ávido de novos conhecimentos, era de seu costume chegar em casa alegre e ansioso para comentar sobre o que aprendera. Contudo, o jovem, sempre sorridente e afável, chegou em casa macambúzio. Olhos voltados para o chão. Não disse nada, recusou o lanche e foi direto para o quarto, recluso, em absoluto silêncio. Assim que o pai chegou em casa, a mãe, zelosa, pediu sua intervenção para apurar o que estava havendo. Inteirado dos fatos desfez-se da pasta, afrouxou a gravata e foi ao quarto do filho para descobrir quais demônios assombravam e distorciam sua face imberbe. - E então, meu filho, qual o mal que te aflige? - Nada! - Seja sincero, jamais tivemos segredos. Pode falar! O que aconteceu para você estar assim, tão triste? O filho, finalmente, encarou o pai. Nos olhos de Eduardo não havia tristeza, m...

D E S C A N S O I N S U L T U O S O

Quero morrer sadia, sã após um dia batalhando para viver sobreviver envolver, se compromissar com a vida Não quero morrer doente, nem de repente, acidente, muito menos! Programo-me para "aquela" morte: - vou dormir feliz, tranqüila erguendo castelos de sonhos ser imperatriz dos meus desejos... Dormir de barriga pra cima, roncar em posição confortante voltar à vida fetal uterina Sonhar com melancia vermelha, doce, matando a sede e a fome canina de carinho Receiar que almas penadas, esquecidas, abandonadas venham meus pés puxar Sentir perfume de morto, de vela apagada de jasmim-do-cabo... Dias depois quando de mim derem falta estarei dormindo de boca aberta (um olho aberto, outro fechado) lívida, extinta - Ó! Descansou!... Ione Jaeger Ribeirão Preto/SP - Novembro de 1998

CONFITENTE

Sou flor bruta, flor do mato, flor agreste, cresci na simplicidade do inço, sem finesse, sem matiz, sem beleza na corola, o espelho diz! Para sentir meu aroma, muito amor, muito amor é preciso, (é um odor escondido no ser). Sou mulher de carne, calor, pulso e coração. Me entrego com amor, muito mel, muito afã no viver da mineral criatura. Sou ardente, apaixonada no minuto duradouro da eternidade quando estou nos braços teus. Sou sincera, autêntica, verdadeira, sentindo tua aura, mas desligo-me no seguinte momento da vertente da paixão. A razão me censura: Dar ouvidos aos gritos da alma? Não escute essa alma que sangra descarnando vivências de jamais ter sido amada. Coloco sentimentos na vanguarda defensiva, estilhaçando na sapa do peito minas enterradas: as falácias do amor! Confesso: sou insegura, receosa das tuas emoções, Não permito... e dói! Não permito enraizar no coração um espaço compassivo, comprazente à voz de Eros. Toda vez que atendi recebi a unilateralidade da sentença: Só ...

O MEDO CAUSADO PELA INTELIGÊNCIA

Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estréia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembléia de vedetes políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal: "Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável! Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos. O talento assusta". Ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio pôde dar ao pupilo que se iniciava numa carreira difícil. Isso, na Inglaterra. Imaginem aqui, no Brasil. Não é demais lembrar a famosa trova de Ruy Barbosa: "Há tantos burros mandando em homens de inteligência,que, às vezes, fico pensando que a burrice é uma Ciência". A maior parte das pessoas ...